Maior preocupação no Mali é a falta de água para atender vítimas, afirma coordenador do ACNUR

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Representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Valentin Tapsoba destaca em uma entrevista os desafios para conter crise humanitária no país africano.

Coordenador do ACNUR no Mali, Valentin Tapsoba (à esquerda, de boné) em visita a um acampamento na Mauritânia. (ACNUR)Mais de 300 mil pessoas já tiveram de deixar suas casas no norte do Mali desde o início dos conflitos em janeiro. Muitas delas buscam abrigo em áreas marginalmente seguras no sul do país, enquanto um número ainda maior foge para países vizinhos.

O Coordenador do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para a situação do Mali, Valentin Tapsoba, passou a maior parte do ano supervisionando os esforços para garantir segurança e proteção às vítimas. Ele é responsável por uma grande operação de ajuda humanitária na região do Sahel, incluindo Argélia, Burkina Fasso, Mali, Níger e Mauritânia.

Baseado em Dacar, no Senegal, Tapsoba visitou recentemente várias capitais europeias para se reunir com doadores e jornalistas na busca por uma robusta resposta humanitária de emergência para o Mali. Leia os principais trechos da entrevista concedida por Tapsoba ao ACNUR em sua passagem por Genebra, na Suíça.

Quais são as condições para os refugiados em Burkina Fasso, Níger e Mauritânia?

Uma de nossas maiores preocupações é a água. Em uma situação de emergência, deve-se ter pelo menos 15 litros por pessoa por dia, mas no Níger estamos abaixo disso. Em Burkina Fasso, a média é de mais ou menos 17 litros por pessoa por dia. Estamos tentando aumentar a oferta de água por dia para 20 litros por pessoa – porque água é vida. Se você não tem água limpa, você pode pegar cólera e muitas outras doenças.

Temos também um grande desafio em termos de educação. Muitos alunos perderam o ano escolar de 2011-2012. Agora estamos tentando ver com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) se podemos ter um memorando de entendimento assinado para que o ano escolar 2012-2013 possa ir para a frente. A educação é uma ferramenta de proteção e não queremos que os alunos se sentem de braços cruzados e talvez venham a ser recrutados pelo Ansar Dine ou o Mujao, dois dos grupos insurgentes no norte do Mali.

O que é que impede o ACNUR de fornecer água suficiente?

Com a água, a primeira questão é recursos. Lançamos um apelo por 153,7 milhões dólares, mas até agora recebemos 64 milhões dólares – menos de 50% da exigência. O segundo desafio é a localização. No Sahel você pode perfurar poços, mas você pode não encontrar água. Mesmo se você encontrar água, pode ser salgada demais e você precisará tratá-la. Ou pode não ser o suficiente para os refugiados, as comunidades de acolhimento, bem como os animais.

Quando os refugiados fugiram para Burkina Fasso, por exemplo, trouxeram também muito gado. Você tem que dar água para o gado também porque eles são uma importante fonte de resiliência para as pessoas.

Se a água já é escassa, e a educação também, o que vai acontecer se a luta se intensificar no Mali e mais pessoas fugirem?

Cada vez mais, não é uma questão sobre se haverá uma intervenção da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS). A questão é quando é que vai ser. Estamos propensos a ter uma fuga em massa de refugiados para países vizinhos – não apenas para Burkina Fasso, Níger e Mauritânia, mas até mesmo Costa do Marfim, Guiné e Senegal.

Então, estamos preparando planos de contingência de modo que vamos ser capazes de lidar com vários cenários. Temos de levá-los à comunidade internacional, levantar mais fundos e aumentar a consciência de que a situação não está terminada. Eu posso dizer que está apenas começando.

O ACNUR está desempenhando um papel dentro Mali e ajudando pessoas internamente deslocadas?

Sim, o ACNUR está desempenhando um papel dentro da abordagem cluster [grupo de agências] no Mali. Somos a liderança de proteção, o que significa que estamos traçando o perfil dos deslocados internos, de modo que todas as agências posam ter uma ideia clara da composição dos membros da família, bem como o seu lugar de origem.

Além disso, o ACNUR estocou alguns itens não alimentares na cidade de Mopti, como colchonetes, enlatados, baldes, lonas, kits de cozinha, cobertores e mosquiteiros para distribuição a alguns dos 40 mil deslocados da região.

Houve qualquer indicação de governos em países vizinhos que enviariam as pessoas de volta?

Os governos do Burkina Fasso, Mauritânia e Níger abriram suas fronteiras, seus corações e suas acolhedoras populações para receber os refugiados que fogem do Mali. Estes países assinaram a Convenção de Refugiados de 1951 e, portanto, não vão fechar suas fronteiras. Mas se houver uma intervenção militar no norte do Mali, a Al Qaeda e os terroristas podem assumir as rotas de fuga usadas pelos refugiados.

Isso é preocupante para nós no campo, porque, se fecharem a fronteira, eles podem estar bloqueando a chegada de pessoas que realmente necessitam de proteção internacional.


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