Em visita à RD Congo, Ban Ki-moon pede que líderes da região apoiem acordo de paz

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Em viagem para África, secretário-geral da ONU pede que líderes apoiem o chamado “quadro de esperança”, acordo que aborda as causas da violência na região que há muito tempo convive com conflitos mortais.

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon é cumprimentado na chegada em Goma pelo comandante da brigada de intervenção da ONU na República Democrática do Congo (RDC), General James Mwakibolwa. Foto: MONUSCO/Clara Padovan

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon é cumprimentado na chegada em Goma pelo comandante da brigada de intervenção da ONU na República Democrática do Congo (RDC), General James Mwakibolwa. Foto: MONUSCO/Clara Padovan

Chegou na quinta-feira (23) no conturbado leste da República Democrática do Congo (RDC) o secretário-geral da ONU. Ban pediu a todos os líderes da região dos Grandes Lagos da África que apoiassem um acordo de paz recém assinado, que visa garantir a segurança e o desenvolvimento para o país que há muito tempo vive em conflito.

“Temos a melhor oportunidade em anos para trazer a paz e a calma para a região”, disse o chefe da ONU em Goma, principal cidade do leste da RDC que desde terça-feira (14) se encontra em novos conflitos entre as tropas governamentais (FARDC) e os rebeldes do Movimento 23 de Novembro (M23).

“Estamos aqui para apoiar o Quadro de Paz, Segurança e Cooperação para a República Democrática do Congo e Região”, disse Ban Ki-moon, em declarações à imprensa após uma visita ao hospital “Cure a África”, que trata de vítimas da violência sexual. Ele estava se referindo ao acordo mediado pelas Nações Unidas entre 11 países, apelidado como “quadro de esperança” por Mary Robinson, a enviada especial do secretário-geral para a região.

Ele disse que o quadro tem como objetivo abordar as causas da violência. Além disso, a brigada de intervenção recém-implantada dentro da Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas no país é projetada para trazer mais estabilidade e proteger os civis.

“Mas isso é apenas um elemento de um processo político muito maior. Um acordo de paz deve entregar os dividendos da paz — saúde, educação, emprego, oportunidade.”

Pedindo aos líderes da região que apoiassem o acordo de paz com ações e investimentos nas “pessoas que sofreram tanto”, particularmente mulheres e meninas, o chefe da ONU também observou que nesta quinta-feira (23) foi o primeiro dia internacional para acabar com a fístula obstétrica.

Muitas das mulheres e meninas no hospital “Cure a África” sofriam de fístula depois de enfrentarem violações sexuais brutais, mas também devido à gravidez precoce e a falta de cuidados de saúde adequados.

Todo mês, são relatados mais de mil estupros na RDC, uma média de 36 mulheres e meninas por dia. Acredita-se que mais de 200 mil mulheres tenham sofrido violência sexual no país desde o início do conflito armado. Esses fatores contribuem para cerca de 40 mil casos de fístula por si só.

O secretário-geral disse que a situação era mais uma prova da necessidade de um desenvolvimento integral no país. Educação e saúde fazem parte da infraestrutura mais ampla do desenvolvimento que pode trazer progresso e esperança para a RDC.

Ban saudou o compromisso do Banco Mundial e do seu presidente, Jim Yong Kim, que no início da viagem anunciou a promessa de 1 bilhão de dólares para promover o desenvolvimento da região.

Secretário-geral Ban Ki-moon e o presidente do Banco Mundial Jim Yong Kim em Goma. Foto: MONUSCO/Clara Padovan

Secretário-geral Ban Ki-moon e o presidente do Banco Mundial Jim Yong Kim em Goma. Foto: MONUSCO/Clara Padovan

Ban Ki-moon, que chegou na RDC na quarta-feria (22) para um diálogo com funcionários de alto escalão do governo na capital Kinshasa, foi acompanhado por Kim e Robinson. Após uma parada em Ruanda, os funcionários seguirão para Uganda, finalizando suas viagens em Adis Abeba, capital da Etiópia, para comparecer a cúpula da União Africana.

Pouco antes da chegada do secretário-geral, o coordenador humanitário da ONU para a RDC, Moustapha Soumaré, pediu a todas as partes que respeitassem o direito internacional humanitário após a morte de três pessoas e 14 feridos na quarta-feira (22) por morteiros que dispararam granadas em uma cidade ao noroeste de Goma.

De acordo com uma nota da imprensa do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários, três granadas explodiram no bairro superpopulado de Ndosho, matando três pessoas e ferindo outras dez.

As explosões, que ocorreram próximo a igrejas, provocaram o pânico entre a população, fazendo com que muitos fugissem para o centro de Goma em busca de segurança. Durante a noite, mais três granadas explodiram ao lado de Mugunga III — um acampamento para pessoas internamente deslocadas, cerca de 10 quilômetros a oeste de Goma e que hospeda 13 mil pessoas — ferindo quatro pessoas e destruindo várias casas.

“Estou muito preocupado com os acontecimentos em Goma”, disse Soumaré, enfatizando que os civis foram feridos durante as operações militares porque as posições e atividades das forças armadas estão ocorrendo “muito perto de onde a população civil está localizada”, em violação das leis humanitárias internacionais.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) também emitiu um comunicado expressando profunda preocupação com o incidente e pediu a todas as partes que garantissem a proteção de civis.

O secretário-geral voou para Kigali no final do dia, onde se reuniu com funcionários do alto escalação do governo, incluindo o presidente de Ruanda, Paul Kagame. Ele também visitou o Centro de Excelência para o Combate à Violência contra Mulheres e Crianças.

Ban e Kim visitaram o memorial de Gisozi — onde mais de 250 mil pessoas que morreram no genocídio de Ruanda estão enterradas — e depositaram coroas de flores em uma comemoração solene ao trágico acontecimento de 1994. Lembrando que era a sua terceira visita ao local, o secretário-geral disse que o memorial serviu como um aviso e um símbolo de esperança. Enquanto a comunidade internacional falhou em Ruanda, o país tinha, em menos de duas décadas, se reconciliado e reconstruído a infraestrutura básica.

“Nós queremos ver a paz e o desenvolvimento em toda a região dos Grandes Lagos”, disse Ban, pedindo à comunidade internacional que construísse um mundo “onde todos vivem com segurança, dignidade e orgulho de quem são, onde quer que estejam”.


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